Como cultivar orgânicos através da agrofloresta – por Ernest Gotsch


Ernst Götsch nasceu na Suíça, onde estudou e trabalhou com melhoramento vegetal até a década de 70. A convite de um aluno brasileiro veio conhecer o país, na época em que a expansão da fronteira agrícola no Paraná punha abaixo as florestas centenárias de araucária. A imagem desta devastação o deixou doente, e poucos anos depois Götsch e sua família vieram se estabelecer na América do Sul, primeiro na Costa Rica, depois no Brasil.

Depois de trabalhar alguns anos em parceria com donos de fazendas, Götsch passou a trabalhar em sua própria terra, uma área de cerca de 500 ha, tornada improdutiva por manejo inadequado (derrubada da mata para criação de gado) em Piraí do Norte, no sul da Bahia, na zona cacaueira.

Em quinze anos a fazenda Fugidos da Terra Seca, em Piraí, tinha sido revegetada e na mata recriada a fauna característica da região estava reinstalada.

Ao mesmo tempo em que a vegetação era recriada, a fazenda se tornou produtiva, com grande variedade de espécies vegetais, incluindo o cacau no sistema cabruca que era tradicional na região, a banana que era comercializada diretamente para a Europa, alimentos para a família e muitas outras plantas.

A revegetação foi feita pelo sistema agroflorestal multiestrato (SAF), e hoje a maior parte da fazenda se tornou uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) 

OLHOS D´ÁGUA

Ernst visitou o Brasil pela primeira vez nos anos 1960 e ficou tão encantado com nossas riquezas naturais quanto chocado com os danos provocados pelas monoculturas. Na década de 1980, mudou-se para a Bahia, onde começou a implantar sistemas agroflorestais. Com esse trabalho, ele adquiriu suas próprias terras, no município de Piraí do Norte, um solo pobre, sem serventia para a agricultura e, por conseqüência, muito barato. Em menos de 20 anos, Ernst havia transformado totalmente o lugar, passando a contar com mais de 300 espécies por hectare e garantindo em sua propriedade um clima até 5 graus mais fresco do que no restante da região.

Implantou o sistema de agroflorestas neste lugar seco e que o sistema impede secas na fazenda, mudando o nome da fazenda para “Olhos d’água”, pois as chuvas são retidas, houve formação de córregos, e tem quase o dobro de precipitação pluvial que as outras propriedades rurais no entorno. Suas terras são consideradas hoje umas das mais produtivas de toda a Mata Atlântica. Conseguiu reflorestar mais de 300 ha de áreas degradadas em florestas altamente produtivas, sem utilizar adubos químicos ou agrotóxicos, levando ao ressurgimento de 17 nascentes.

Sua visão pioneira da evolução e função das espécies, bem como os princípios de seus sistemas, é aplicável em qualquer ecossistema e constitui uma referência internacional no desenvolvimento de Sistemas Agroflorestais – uma nova visão de agricultura que reconcilia o ser humano com o meio ambiente.

“Em qualquer lugar, pode-se chegar à terra boa de novo”, garante o especialista. Sua técnica consiste em identificar as espécies nativas do local onde se quer produzir e plantar consórcios, isto é, conjuntos de plantas cujo tempo de vida se combinam, de forma a apoiar o crescimento umas das outras. As pioneiras são mais resistentes ao solo empobrecido e, ao terminarem seu ciclo, formam a matéria orgânica que começa a transformar as condições locais. As espécies comestíveis integram os consórcios e são inseridas de forma a ocupar um estrato e um período de vida em harmonia com as demais.

No caso do Sul da Bahia, por exemplo, Ernst colhe, no primeiro ano, feijão-de-porco e, no segundo, mandioca. No terceiro e no quarto anos, já consegue colher também abacaxi e maracujá. No quinto, passa a produzir também banana e no sexto, palmeira-pupunha. Do sétimo ano em diante, colhe-se açaí, entre outros produtos.

“Tudo o que faço é buscando que o resultado de minha operação resulte em mais vida e mais riqueza no planeta inteiro”, declara o agricultor.

LIÇÕES DO MESTRE

Ernst Götsch nos mostra que agroflorestas são agroecossistemas semelhantes aos sistemas naturais.

Observando esta premissa ecossistêmica recupera solos degradados, sem insumos de fora, ao contrário da “revolução verde” e do modelo insustentável do agronegócio latifundiário e da monocultura.

A agrofloresta evita ciclos anti-ecológicos com desarmonia inoportuna.

O Planeta Terra é um biocondensador, pois capta 1% da energia solar e armazena hidrocarbono, portanto as queimadas são suicídio.

A agrofloresta produz madeira, que não é plantada com esta finalidade exclusivamente, pois é um subproduto.

“As espécies tem função prazerosa, criam o paraíso na Terra em comunicação.”

Conta que se vale dos dispersores naturais de sementes: pássaros, até animais exóticos, cotias,outros considerados extintos, frugívoros como o macaco-prego são plantadores de cacau e de jaca.

Outro semeador é a paca, gavião planta pupunha, a saúva é grande reflorestadora. Otimizadores do processo da vida!

Lembra que o guanandi na Mata Atlântica é indicador de nascente de água.

Minhocoçu,com cerca de 2 metros e 350 gramas é indicador de terra boa.

Sua dica é plantar o que pode dar no local.

A regeneração na floresta ocorre a partir de clareiras, até chegar a uma mata de clímax com ipês-roxo, guapuruvus.

Na caatinga planta sisal, depois beldroega, mandacaru ( cactus ), guandu, feijão,caju,mamão.

Na clareira planta logo pitanga e ingá, por exemplo.

Cuidado com animais domésticos( cabras, ovelhas, porcos,bovinos) pois modificam a paisagem, originando a estepe.

Saber do princípio hermético, atentando para processos regenerativo, respiratório.

Cada espécie é pré-determinada pela que a precedeu.

Colonizadores (bactérias), acumuladores com ciclos respiratório e regenerativo paralelos à ação dos polinizadores como as formigas, insetos, animais dispersores de sementes trazem muita abundância com muitos animais de grande porte atuando juntos com a sucessão natural para uma biodiversidade consolidada.

A placenta da agrofloresta são as vassouras, marcela, guandu.As criadoras da placenta são batata-doce,mandioca para uma densidade definitiva de vegetação semelhante a um monocultivo com respiração para levar a uma transformação com plantas secundárias tais como banana-nanica, araçá-mirim, jurubeba, tomate de árvore e chegando a um ciclo longo com pitanga, goiaba, abacate, araticum, ingá-cipó, algumas das canelas.

Lembrando que para se chegar a um ciclo completo de respiração da floresta leva de 250 a 300 anos para chegar ao clímax com as características de auto-reprodução da floresta.

Em tempos de seca, principalmente ética e intelectual dos políticos brasileiros, propondo uma revisão desastrosa do Código Florestal Brasileiro recordemos Benjamin Franklin: “Se as cidades forem destruídas e os campos forem conservados, as cidades ressurgirão, mas se queimarem os campos e conservarem as cidades, estas não sobreviverão.” acrescento: sem a floresta o campo perecerá queimado e desértico como podemos ver atualmente no Cerrado e na Amazônia.

Fonte: http://www.agendagotsch.com/


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